Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente
da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que
é um sofrimento. Dizer esse entra, esse não entra é uma
responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa.
Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa
amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra. Os candidatos
amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista
de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma ideia que julguei
brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os
candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o
candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe
fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que
você gostaria de falar!”. [...] A reação dos candidatos, no entanto,
não foi a esperada. Aconteceu o oposto: pânico. Foi como se esse campo,
aquilo sobre o que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente
desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo
bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira
escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos –
ah, isso não lhes tinha sido ensinado!
Na verdade, nunca lhes havia
passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus
pensamentos pudessem ser importantes.
(Rubem Alves, www.cuidardoser.com.br. Adaptado)