sábado, 8 de julho de 2017

Saudade do meu quintal

Eu fui convidado  no ano passado para uma entrevista de emprego e deveria escrever sobre quem eu sou, encontrei hoje esse texto perdido o computador e pensei, porque ainda não havia compartilhado este texto, espero que gostem!!!




Saudade do meu quintal


Nasci em Cuiabá, um final de tarde de domingo às 18:50, quando criança dizia aos meus coleguinhas: Gosto tanto dos trapalhões que nasci quase na hora que estava começando o programa! Garoto mimado, com pouca ou quase nada de convivência com o universo masculino, pois meus primeiros 07 anos de vida se passaram em uma casa morando com a minha mãe, minha vó materna Maria e tendo como vizinha a irmã da minha mãe e duas primas com poucos anos a mais que os meus, minhas primeiras parceiras de brincar, já dá pra imaginar as brincadeiras que elas me colocavam, chazinho, comidinha, boneca, não era muito de meu agrado mas era o que eu tinha pra brincar e por mais chato que eram as brincadeiras, serviram para fortalecer o nosso laço familiar, as quais amo e convivo até hoje com muito carinho.
Chegou o momento das minhas primas parceiras de brincadeira mudarem para um bairro novo, distante, fiquei sozinho sem amigos, apenas com uns gatos que minha vó sempre gostou, eu já tinha uns 05 anos e inventava aventuras em casa, meu universo infantil se limitava ao quintal, muito extenso, estilo cuiabano daqueles tempos, cheio de árvores, diversas mangueiras, cajá-manga, bananeira, laranjeira, mixiriqueira, abacateiro, limoeiro, mamoeiro, canavial (de 05 a 10 pés no máximo), jabuticabeira, mandiocal, até algodão se encontrava por lá, já estava quase me esquecendo de falar o poço, antigo, muito antigo, rodeado de histórias e estórias, diziam que o bairro era cheio de assombrações e o quintal da minha casa era alvo de conversas que um lobisomem ficava a noite por ali, pensei, preciso comprovar isso, e rumei com ferramentas para o quintal determinado a verificar a existência do tal lobisomem, a armadilha que eu tinha em mente não era pra machucar ou aprisionar, seria apenas um meio para eu observar e comprovar a existência da besta, cavei um buraco raso, depois a terra que tirei do buraco misturei com água e retornei o material para dento do buraco, ficando uma massa de lama que no decorrer da noite o lobisomem pisaria e deixaria a marca das suas patas no meu “capturador de pegada de lobisomem”, não preciso dizer que não deu certo, pois se tivesse dado, hoje eu seria famoso e o lobisomem catalogado talvez com o nome “lupus hominus gilbson” uma homenagem ao pequeno descobridor de admirável criatura.
Enfim a escola, nossa, como tudo era grande, o pátio enorme, as salas enormes, com escadarias enormes, quadros enormes, fiquei maravilhado, esqueci-me de comentar que antes da primeira série fui alfabetizado em casa, aprendi matemática e um pouco de inglês, minha mãe, uma mulher viajada e cheia de conhecimento, uma Barsa ambulante, fez questão de me ensinar o suficiente para me sentir confortável diante de questionamentos primários, minha mãe optou por uma produção independente, fui criado sem pai, mas nem por isso fui apenas mimado, havia momentos de rigorosidade extrema na minha educação e nos ensinamentos que fizeram parte da minha formação pessoal; já a minha vó, muito católica sempre fez questão que eu a acompanhasse nas rezas que rotineiramente ocorriam a noite nas casas das colegas dela de igreja, muito bolo gostoso, suco e doces variados, eu era magro mas observo que sempre gostei de comer essas guloseimas, eu era um gordo no corpo de uma magro (o desafio agora é me tornar um magro em um corpo de gordo, para depois viver magro e com saúde).
Perdi minha querida avó quando tinha dez anos de idade, o trio formado por eu, minha mãe e minha vó agora era uma dupla; eu minha mãe fomos parceiros fortes, grandes amigos, minha mãe respondia e explicava o mundo para mim, estava sempre junta nas minha vitórias e me consolava nas minhas derrotas, ao 16 anos me tornei aventureiro, esportista radical, subir morros, descer rios, não havia distância para eu e meu desejo de liberdade e aventura, correndo, pedalando, caminhando, nadando, sem limites, eu e a natureza, o cerrado era agora o meu quintal. Eu sempre afirmava, não existe sensação melhor que sentir a chuva no rosto.
Com 17 anos vem a época do serviço militar, eu acreditava que iria ser chamado, eu queria ser chamado, eu sabia que ali era meu lugar, infelizmente me dispensaram, que chato, o jeito agora é começar a trabalhar sem aventura, eu já havia trabalhado antes mas não tinha “cara” de trabalho, parecia uma festa, eu e um vizinho montamos um negocio de vídeo game, a gurizada pagava para jogar e nós ganhávamos dinheiro e nos divertíamos. Trabalhei em conveniência de posto de gasolina, auxiliar jurídico, banco, auxiliar de escritório, banca revista, correios, como dizia um grande amigo meu: “sei de tudo um pouco, falta me especializar em algo para ganhar dinheiro”. Fui pra faculdade, Filosofia, cursei 1 ano, desisti, não é fácil para quem tem poucos recursos financeiros se manter trabalhando e estudando, na verdade me faltou mais responsabilidade e visão de futuro.

Aos 27 anos me tornei pai, pronto, a dupla voltou a ser trio, agora somos eu, minha mãe e meu filho, por mais que não morássemos uns próximos dos outros, quando estávamos os três juntos existia um brilho no ar, mágico. Agora chega de brincar, vamos trabalhar de verdade pensei eu, buscar algo aqui, busca algo ali, quando eu tinha meu negócio de vídeo game eu também dava aulas de informática, optei pela filosofia porque eu já havia notado que gostava da sala de aula, gostava de lecionar, fiz um curso de instrutor de trânsito e por muito tempo trabalhei como instrutor de trânsito (14 anos), por força do capitalismo, os meus rendimentos caíam ano após ano e resolvi montar meu próprio negócio de trânsito, sobrevivi muito bem por 02 anos, mas não suportei um longo período de inadimplência, parti em busca de outro meio de sobrevivência, vocês acreditam que enfim arrumei um lugar para trabalhar fantástico, clima organizacional legal, a minha função muito agradável, trabalhar para ajudar pessoas, que coisa boa e ainda recebendo satisfatoriamente bem por isso! Parece que agora tudo se encaixará, voltei até pra faculdade; mas o final feliz não é agora ainda, a empresa faliu, pasmem, o próprio dono roubou a empresa, retirou todo o dinheiro e abandonou seu próprio negócio.

Essa é minha vida atual, meu filho agora é um adolescente com quase 13 anos, bonito, inteligente e seguro no seu mundo de aprendizado e amadurecimento e eu me recolocando no mercado de trabalho novamente, buscando uma oportunidade, para trazer conforto e segurança para aqueles que amo, algo que deveria ser fácil pois tenho conhecimento em manutenção de computadores, tenho curso de oratória, liderança de equipes, multiplicador de educação ambiental, fui voluntário na Copa o mundo 2014 com participação em 180 horas de cursos (História do Futebol e Megaeventos, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Hospitalidade e Turismo, Segurança e Primeiros Socorros, Atividade Integradora e Idioma Espanhol) sem contar o mais importante e que resolve os mais variados problemas cotidianos, domino o pacote Office da Microsoft e muita habilidade no relacionamento interpessoal e facilidade para escrever.

Agora que estamos quase no fim do passeio superficial pelas minhas vivências, encerrarei falando do meu casamento, falo da minha cara metade. Minha mãe sempre dizia: “Vocês dois são iguaizinhos”, lembrem-se de quando falei do meu nascimento, pois é, a minha amada nasceu 02 dias antes, no mesmo hospital, na mesma cidade, quase que nos encontramos lá na maternidade! Encontrei meu amor, minha amiga, minha amante, já se passaram mais de 03 anos que vivo meu amor, Agora somos 04, ops... a minha mãe resolveu deixar o grupo, foi para outro lugar, cumpriu sua missão, somos três novamente, agora eu, minha esposa e meu filho, tenho planos de me estabilizar ainda mais financeiramente, terminar meu curso superior, ter minha casa própria ainda este ano e transformar esse numero 03 em número 04, pois o nosso sonho é termos uma filhinha. Que minha mãe nos olhe e nos cuide lá de seu paraíso pois estamos daqui sempre mandando boas energias para ela, relembrando com carinho o quanto de alegria e conhecimento nos proporcionou enquanto viveu ao nosso lado!

Gilbson Zarezocoiê Arury

Cuiabá, 25 de março de 2016

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