Saudade do meu quintal
Nasci em Cuiabá, um final de tarde de domingo às
18:50, quando criança dizia aos meus coleguinhas: Gosto tanto dos trapalhões
que nasci quase na hora que estava começando o programa! Garoto mimado, com
pouca ou quase nada de convivência com o universo masculino, pois meus
primeiros 07 anos de vida se passaram em uma casa morando com a minha mãe,
minha vó materna Maria e tendo como vizinha a irmã da minha mãe e duas primas
com poucos anos a mais que os meus, minhas primeiras parceiras de brincar, já
dá pra imaginar as brincadeiras que elas me colocavam, chazinho, comidinha,
boneca, não era muito de meu agrado mas era o que eu tinha pra brincar e por
mais chato que eram as brincadeiras, serviram para fortalecer o nosso laço familiar,
as quais amo e convivo até hoje com muito carinho.
Chegou o momento das minhas primas parceiras de
brincadeira mudarem para um bairro novo, distante, fiquei sozinho sem amigos,
apenas com uns gatos que minha vó sempre gostou, eu já tinha uns 05 anos e
inventava aventuras em casa, meu universo infantil se limitava ao quintal, muito
extenso, estilo cuiabano daqueles tempos, cheio de árvores, diversas
mangueiras, cajá-manga, bananeira, laranjeira, mixiriqueira, abacateiro,
limoeiro, mamoeiro, canavial (de 05 a 10 pés no máximo), jabuticabeira,
mandiocal, até algodão se encontrava por lá, já estava quase me esquecendo de
falar o poço, antigo, muito antigo, rodeado de histórias e estórias, diziam que
o bairro era cheio de assombrações e o quintal da minha casa era alvo de
conversas que um lobisomem ficava a noite por ali, pensei, preciso comprovar
isso, e rumei com ferramentas para o quintal determinado a verificar a
existência do tal lobisomem, a armadilha que eu tinha em mente não era pra
machucar ou aprisionar, seria apenas um meio para eu observar e comprovar a
existência da besta, cavei um buraco raso, depois a terra que tirei do buraco
misturei com água e retornei o material para dento do buraco, ficando uma massa
de lama que no decorrer da noite o lobisomem pisaria e deixaria a marca das
suas patas no meu “capturador de pegada de lobisomem”, não preciso dizer que
não deu certo, pois se tivesse dado, hoje eu seria famoso e o lobisomem catalogado
talvez com o nome “lupus hominus gilbson” uma homenagem ao pequeno descobridor
de admirável criatura.
Enfim a escola, nossa, como tudo era grande, o
pátio enorme, as salas enormes, com escadarias enormes, quadros enormes, fiquei
maravilhado, esqueci-me de comentar que antes da primeira série fui
alfabetizado em casa, aprendi matemática e um pouco de inglês, minha mãe, uma
mulher viajada e cheia de conhecimento, uma Barsa
ambulante, fez questão de me ensinar o suficiente para me sentir confortável
diante de questionamentos primários, minha mãe optou por uma produção
independente, fui criado sem pai, mas nem por isso fui apenas mimado, havia
momentos de rigorosidade extrema na minha educação e nos ensinamentos que
fizeram parte da minha formação pessoal; já a minha vó, muito católica sempre
fez questão que eu a acompanhasse nas rezas que rotineiramente ocorriam a noite
nas casas das colegas dela de igreja, muito bolo gostoso, suco e doces
variados, eu era magro mas observo que sempre gostei de comer essas guloseimas,
eu era um gordo no corpo de uma magro (o desafio agora é me tornar um magro em
um corpo de gordo, para depois viver magro e com saúde).
Perdi minha querida avó quando tinha dez anos de
idade, o trio formado por eu, minha mãe e minha vó agora era uma dupla; eu
minha mãe fomos parceiros fortes, grandes amigos, minha mãe respondia e
explicava o mundo para mim, estava sempre junta nas minha vitórias e me
consolava nas minhas derrotas, ao 16 anos me tornei aventureiro, esportista radical,
subir morros, descer rios, não havia distância para eu e meu desejo de
liberdade e aventura, correndo, pedalando, caminhando, nadando, sem limites, eu
e a natureza, o cerrado era agora o meu quintal. Eu sempre afirmava, não existe
sensação melhor que sentir a chuva no rosto.
Com 17 anos vem a época do serviço militar, eu
acreditava que iria ser chamado, eu queria ser chamado, eu sabia que ali era
meu lugar, infelizmente me dispensaram, que chato, o jeito agora é começar a
trabalhar sem aventura, eu já havia trabalhado antes mas não tinha “cara” de
trabalho, parecia uma festa, eu e um vizinho montamos um negocio de vídeo game,
a gurizada pagava para jogar e nós ganhávamos dinheiro e nos divertíamos.
Trabalhei em conveniência de posto de gasolina, auxiliar jurídico, banco,
auxiliar de escritório, banca revista, correios, como dizia um grande amigo
meu: “sei de tudo um pouco, falta me especializar em algo para ganhar
dinheiro”. Fui pra faculdade, Filosofia, cursei 1 ano, desisti, não é fácil
para quem tem poucos recursos financeiros se manter trabalhando e estudando, na
verdade me faltou mais responsabilidade e visão de futuro.
Aos 27 anos me tornei pai, pronto, a dupla voltou a ser
trio, agora somos eu, minha mãe e meu filho, por mais que não morássemos uns
próximos dos outros, quando estávamos os três juntos existia um brilho no ar,
mágico. Agora chega de brincar, vamos trabalhar de verdade pensei eu, buscar
algo aqui, busca algo ali, quando eu tinha meu negócio de vídeo game eu também
dava aulas de informática, optei pela filosofia porque eu já havia notado que
gostava da sala de aula, gostava de lecionar, fiz um curso de instrutor de
trânsito e por muito tempo trabalhei como instrutor de trânsito (14 anos), por
força do capitalismo, os meus rendimentos caíam ano após ano e resolvi montar
meu próprio negócio de trânsito, sobrevivi muito bem por 02 anos, mas não
suportei um longo período de inadimplência, parti em busca de outro meio de
sobrevivência, vocês acreditam que enfim arrumei um lugar para trabalhar
fantástico, clima organizacional legal, a minha função muito agradável,
trabalhar para ajudar pessoas, que coisa boa e ainda recebendo
satisfatoriamente bem por isso! Parece que agora tudo se encaixará, voltei até
pra faculdade; mas o final feliz não é agora ainda, a empresa faliu, pasmem, o
próprio dono roubou a empresa, retirou todo o dinheiro e abandonou seu próprio
negócio.
Essa é minha vida atual, meu filho agora é um adolescente
com quase 13 anos, bonito, inteligente e seguro no seu mundo de aprendizado e
amadurecimento e eu me recolocando no mercado de trabalho novamente, buscando
uma oportunidade, para trazer conforto e segurança para aqueles que amo, algo
que deveria ser fácil pois tenho conhecimento em manutenção de computadores,
tenho curso de oratória, liderança de equipes, multiplicador de educação
ambiental, fui voluntário na Copa o mundo 2014 com participação em 180 horas de
cursos (História do Futebol e Megaeventos, Meio Ambiente e
Sustentabilidade, Hospitalidade e Turismo, Segurança e Primeiros Socorros,
Atividade Integradora e Idioma Espanhol) sem contar o mais importante e que
resolve os mais variados problemas cotidianos, domino o pacote Office da
Microsoft e muita habilidade no relacionamento interpessoal e facilidade para
escrever.
Agora que estamos quase no fim do passeio
superficial pelas minhas vivências, encerrarei falando do meu casamento, falo
da minha cara metade. Minha mãe sempre dizia: “Vocês dois são iguaizinhos”,
lembrem-se de quando falei do meu nascimento, pois é, a minha amada nasceu 02
dias antes, no mesmo hospital, na mesma cidade, quase que nos encontramos lá na
maternidade! Encontrei meu amor, minha amiga, minha amante, já se passaram mais
de 03 anos que vivo meu amor, Agora somos 04, ops... a minha mãe resolveu
deixar o grupo, foi para outro lugar, cumpriu sua missão, somos três novamente,
agora eu, minha esposa e meu filho, tenho planos de me estabilizar ainda mais
financeiramente, terminar meu curso superior, ter minha casa própria ainda este
ano e transformar esse numero 03 em número 04, pois o nosso sonho é termos uma
filhinha. Que minha mãe nos olhe e nos cuide lá de seu paraíso pois estamos
daqui sempre mandando boas energias para ela, relembrando com carinho o quanto
de alegria e conhecimento nos proporcionou enquanto viveu ao nosso lado!
Gilbson
Zarezocoiê Arury
Cuiabá, 25 de março de 2016
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Uma dica de comentário: Pessoas baixas falam de outras pessoas, já as medianas falam de coisa, enquanto as elevadas falam de idéias e ideais; cuidado com o que você fala...